CIDADE

Laene ComVida: 'Conversar com ela é mergulhar em oceano pacífico, mas não parado'

23/02/2024 12:00




 “Lalá vem me entrevistar e Bella vem também. Vai rolar uma cervejinha. A-do-ro! Tenho que lembrar de casos engraçados, não... melhor é responder sem pestanejar.”

É isso que ela faz. Nos cravados 169 minutos da nossa conversa, não escorrega nem desvia o assunto. Pisca bastante os dois holofotes azuis (ela jura que são folha seca), raspa a garganta, emenda um caso a outro, num detalhamento machadiano - eu quase me perdendo no fio da meada - pra retornar e responder, objetiva, à pergunta.

Feito uma encantada enciclopédia, Andréa Alice Leite César vai entrelaçando os personagens da sua vida - nomes, sobrenomes, ofícios, estados civis e parentescos -, parece não sossegar até que os também reconheçamos. Famílias. Não passam sete minutos sem que ela cite a mãe-rainha-exemplo de vida Maria Alice, a tia-mãezinha-inspiradora Beth Iacomini, o tio-caçula-minimalista-Teba, o tio Geraldo - que a arrepiou tocando seresta, a prima-carioca-Jussara-que a levou ao Rock in Rio, a prima-mais velha Sandra - que a carregava pros bailes do Pontenovense, o irmão Lelo, as irmãs Amanda e Cláudia e as adoradas-filhas Sara e Luíza.

Andréa fala, gosta, procura: é família. Bastam alguns telefonemas pra ela fazer brotar as árvores genealógicas de Ponte Nova, onde conhece todo mundo. Quisera eu ter mais tempo pra sair pela cidade perguntando por ela: “Aquela que vendeu todas as roupas da Yes Brazil para ver o Peter Frampton em BH?”, alguém diria. “A rodeada de amigos na avenida”, muitos falariam. Uma mente aberta, um espírito inquieto, uma emoção em prontidão, assim vejo Andréa: música e alegria.

“– Eu sempre fui muito agitada, minha mãe me ensinou esse caminho do meio, de buscar minha inteligência emocional.”

“– O que é inteligência emocional?”

 “– A forma como a gente lida com as emoções genuínas sem esbarrar nos subprodutos. Por exemplo, ter raiva é genuíno, ter ódio é subproduto.”

Conversar com Dedéa (ela adora se chamar assim) é mergulhar em oceano pacífico, mas não parado, águas maduras nem de longe lerdas. Falamos de hormônios e ela: “Olho ao redor e agradeço, produção natural de serotonina (risada)”. Comento o número de casa e ela despeja uma aula de numerologia pitagórica (“entendeu? Não”). Para logo em seguida, quase se levantar, ligada: “Ô amor! Tô vendo que as meninas estão com calor, quem sabe a gente não senta lá fora?!”

Com o seu amor-companheiro-maridão Emerson Eduardo Ferreira, o Sansão (“é a pessoa com quem quero viver pro resto da minha vida”), ela compartilha o prazer da cervejinha gelada, o tira-gosto “dotôso”, receber amigos e cuidar da filha peluda Vica na chácara. A novidade são os quatro gatinhos que têm chegado noturnamente para o “leite sem lactose para não fazer mal”.

“O animal veio ao mundo com a única missão de ensinar as pessoas a amarem.” Andréa sai do sério quando são maltratados: “Isso me dói pro-fun-da-men-te.” Mentira e gritos ela também não suporta: “Minha essência é sensível.” Sim, ela tem a sensibilidade da corda do violão que vibra só de ouvir “Dia Branco”, sua música preferida. E uma inteligência incomum.

Pedagoga e psicopedagoga, com oito pós-graduações em Docência, supervisora na Rede Municipal de Ensino, Andréa escreve projetos, redige atas e cria poesias (“quando eu escrever uma poesia que pareça banal, por favor me belisca”). Estudiosa, prefere os livros técnicos aos romances. Neurociência e Jung, mas também Elisa Lucinda e o tarô: “Identifico-me com o arcano onze do tarô. A verdadeira força não está no braço físico, e sim na mente inteligente.”

Ao mesmo tempo que me responde a jato e fala como se perdesse o ar, sua miopia é de águia (o animal que queria ser): percebe tudo à frente, atrás... bor-bu-lhan-te. Pergunto qual cor ela seria: “O mais lindo tom de violeta, sou aquela que sabe transmutar.” Discordo. Déa é furta-cor. Vinda do globo de espelhos de dias dançantes. Dos cristais de areia sob o sol do Acabiara. Andréa é festa que falta aos tempos de hoje.

 







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