POLÍCIA

PM Gama mata Claudinho Bellico com três tiros de pistola

02/11/2023 19:00




 Acontece hoje, quinta-feira (2/11), na Igreja Matriz da Paróquia Nossa Senhora do Amparo, a missa de sétimo dia da morte de Antônio Cláudio de Souza Bellico (Claudinho), 57 anos. Ele foi assassinado com três tiros às 20h da noite de 27/10, em rua central de Amparo do Serra,  (leia aqui) e (leia aqui)pelo policial militar Rafael Marco Gama de Souza, 36, preso em flagrante.

Claudinho era presidente do América FC e foi secretário de Governo da Prefeitura. O crime revoltou a comunidade, sucedendo-se pelas redes sociais mensagens de indignação contra o ato do PM. Repercutiram ainda os vídeos, sendo que um deles mostra o policial com arma em punho, aparentando sintomas de embriaguez e cambaleando ao lado do corpo ensanguentado.

 Durante o velório, testemunhas disseram a este Jornal o que constou no boletim de ocorrência/BO da PM: os dois bebiam num bar e passaram a discutir. Conforme os vídeos divulgados, em certo momento o PM foi à sua casa, ali perto, havendo nova discussão e luta num beco, onde ocorreu um disparo.

Pouco tempo depois, Claudinho correu e foi perseguido pelo PM. Houve nova discussão, briga e queda de ambos. No chão, Gama atirou no oponente. Ainda no velório, Reginaldo de Souza Bellico, irmão de Claudinho, bradou: “Meu irmão foi vítima de um covarde.”

Espera-se discurso, na Câmara serrense, do vereador Sebastião de Souza Bellico, também irmão da vítima. Durante o velório, Sebastião alegou, perante a nossa Reportagem, que não tinha condições emocionais para conceder entrevista.

PM alega legítima defesa

 Logo ao ser preso e entregar sua arma, o PM Gama alegou legítima defesa. Perante os PMs e já na Polícia Civil, ele - ao lado da advogada Natália Winter Duelli Rossi - contou, no auto de prisão em flagrante (obtido por esta FOLHA), que foi ao bar comprar cerveja e, na volta para casa, Claudinho chegou “em estado de embriaguez, dizendo que iria me matar e que não gosta de polícia”.

O policial salienta que tentou afastar o oponente até que este o pegou de costas, aplicou-lhe um golpe “mata-leão”, jogou-o num beco e, além de agredi-lo, tentou tomar sua arma. Gama sublinhou que pensou “no pior”, caso não reagisse, até que Claudinho investiu de novo contra ele. A partir daí, “não me lembro de mais nada devido ao estado de choque”.

O PM nega que estivesse alcoolizado, atribuindo seu jeito cambaleante ao “estado de choque”, enquanto aguardava a PM que ele mesmo chamou.

 Natália repassou o caso para a advogada Élida Oliveira Machado Franklin e esta falou com nossa Reportagem pelo WhatsApp. A seguir, o condensado de seu raciocínio:

“As primeiras informações davam um destaque como se o PM Gama tivesse iniciado o confronto. Contudo, no vídeo completo [com sete minutos], nota-se que quem iniciou a provocação e as agressões foi Claudinho.”

Continua Élida: “De fato, Gama estava em situação de desvantagem, relutou diante da luta, tentando a todo custo livrar-se daquelas agressões, evitando que o outro lhe tomasse a arma. No último momento, percebeu que podia perder o confronto e disparou no outro. Temos que dar espaço para a versão dele, pois ele é um policial, que serve à sociedade. Devemos dar relevância a todo o trabalho dele. Trabalhamos para restabelecer a verdade e restaurar também a liberdade de Rafael Gama.”

Fala de advogados

 A família de Claudinho contratou os advogados Moacyr Fialho Aguiar e Sherllee Nascimento de Oliveira para acompanharem o encaminhamento do inquérito policial.

Entre outras providências, os advogados requereram a anexação de todas as imagens de câmeras de segurança do entorno da cena do crime. Moacyr Fialho confirmou para esta FOLHA que pediu “o acautelamento das roupas usadas, uma vez que elas contêm vestígios do crime”.

Na nota enviada a este Jornal, Moacyr e Sherllee declaram: “Acreditamos que, ao final das investigações, o delegado de Polícia Civil indiciará o autor dos fatos por homicídio ao menos duplamente qualificado.”

A esta FOLHA, o delegado Silvério Rocha de Aguiar informou em 1o/11 que encaminha as diligências em sigilo.

As providências

Nota da 21ª Companhia/PM esclareceu: “O policial foi conduzido à Polícia Civil/PC por ser crime comum, e não militar. Posteriormente foi encaminhado a uma unidade da PMMG, onde ficará à disposição da Justiça. A Corregedoria da PM acompanha o caso.”

Houve transporte de Claudinho para a Unidade de Saúde local e de lá para o Hospital Arnaldo Gavazza, em Ponte Nova, onde se constatou o óbito. A Perícia da PC esteve na cena do assassinato para as averiguações de praxe.

Esta FOLHA apurou a versão do atirador. O BO informa que o soldado Gama teria sintomas de alcoolização quando entregou sua arma (pistola calibre 40) e foi preso.

Na audiência judicial de custódia, na tarde de 29/10, ratificou-se o flagrante do atirador [efetuado na Polícia Civil], transformando em preventiva a prisão em flagrante.

Três depoimentos no velório

Michele Bellico, advogada e prima de Claudinho, lamentou: “O assassinato ocorreu de forma tão brutal! Não sabemos ao certo o que aconteceu, mas a situação se agrava porque o autor, sendo um militar, é pessoa que deveria estar capacitada para nos defender.”

Roberto Bellico, pai de Michelle, também é advogado e ex-prefeito serrense. Para ele, o fato de o atirador ser um policial agrava o cenário. “Só agora ficamos sabendo que ele era violento”, resumiu Roberto para arrematar: “Não cabe a nós o julgamento, porque, afinal, quem julga é o juiz e Deus, mas temos que lamentar uma coisa dessas em nossa cidade.”

Outro advogado, Túlio Cária, disse que ocorreu uma “tragédia anunciada”, diante de relatos da conduta do policial [várias pessoas disseram no velório que ele era violento e se exibia com arma na cintura, inclusive quando fazia seus exercícios matinais]. Para Túlio, houve omissão do Poder Público, que já deveria ter relatado o comportamento do PM perante a Segurança Pública do Estado.

  







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