CIDADE

Denísio prioriza sustentabilidade ambiental e social na BB Asset

16/08/2023 13:00




 Novo presidente da BB Asset Management, empresa líder nacional na gestão de fundos de investimento, o pontenovense Denísio Liberato está na capa do Jornal Valor Econômico desta quarta-feira (16/8). Ele planeja transformar a gestora do Banco do Brasil num "hub" de investimentos que seguem as práticas ESG (sigla em inglês que representa sustentabilidade ambiental/social e governança corporativa).

Denísio assumiu o cargo há um mês - conforme anunciamos neste site em 26/6 (leia aqui). Ele é diretor de Investimentos da Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil/Previ. A ideia, segundo disse ele à jornalista Liane Thedim, é atrair grandes fundos de pensão, seguradoras e fundos soberanos estrangeiros. Estas entidades internacionais formam hoje a maior demanda por investimentos sustentáveis.

Note-se que Liberato integra desde 2022 o colegiado da iniciativa "Princípios para o Investimento Responsável", da Organização das Nações Unidas/ONU, programa com cerca de 3 mil signatários, cujos ativos - que ultrapassam US$ 130 trilhões - estão comprometidos com as áreas de direitos humanos, trabalhistas, meio ambiente e anticorrupção.

"A longo prazo, o mundo vai ter que ser mais verde. As empresas estão aumentando o foco em estudos para inovar e ter um impacto menor no meio ambiente. Quem não está neste caminho não vai sobreviver", diz o novo presidente da BB Asset na reportagem do Valor Econômico. Ele enviou cópia da entrevista para esta FOLHA.

Outro projeto de atuação, diz ele, é por meio de sinergia com o BB, que tem forte atuação junto ao agronegócio. Avalia ele ao ser entrevistado por Liane Thedim: "A BB Asset pode fazer a conexão entre a expertise do BB, uma inteligência de décadas no agronegócio, e estes investidores internacionais que estão atrás de uma atuação mais sustentável. Precisamos de bons ativos para atrair este capital global."

Denísio também tem projetos na área de diversidade, com base no diagnóstico de consultoria contratada pela BB Asset. "Como primeiro presidente negro, preciso colocar esta pauta como prioritária. A gente começa agora a montar plano de trabalho para atacar os problemas identificados. Meu compromisso com a diversidade de raça e de gênero é integral. Assim como me foi dada a oportunidade, quero o mesmo para meus semelhantes. O mundo tem que ser verde, mas também tem que ser inclusivo", comentou ele.

O Valor Econômico encerra a entrevista com um perfil de Denísio. Veja a íntegra do texto da jornalista Liane Thedim:

 "O ano é 1999 e, nas ruas de Ponte Nova, cidade de 50 mil habitantes na Zona da Mata Mineira, um jovem corre contra o tempo em sua bicicleta. Pouco antes, sua tia havia conseguido R$ 25 (R$ 110 hoje, atualizados pela inflação) emprestados com o vizinho para sua inscrição no Concurso do Banco do Brasil, diante da promessa de que o rapaz pagaria quando recebesse seu primeiro salário.

Aluno de Economia da Universidade Federal de Viçosa, ele estava a ponto de desistir dos estudos: o dinheiro não dava para nada além das fotocópias dos livros que não conseguia comprar. Vinte e quatro anos depois, a pressa daquele jovem, Denísio Liberato, hoje com 43 anos, é para ver suas ideias darem resultado. Ele acaba de assumir a presidência da BB Asset, maior gestora do país, com R$ 1,4 trilhão sob gestão. É a primeira pessoa negra a ocupar o cargo.

Filho de pai pedreiro e mãe dona de casa, Liberato conseguiu romper o ciclo de pobreza de sua família com dedicação e disciplina. Foi descoberto aos 13 anos no time de futebol da cidade por Reinaldo, centroavante histórico do Atlético Mineiro, durante evento local. Convidado a um teste em Belo Horizonte, jogou por dois anos na categoria de base do time da Capital, até 1994, mas teve que abandonar o sonho quando seu pai adoeceu gravemente.

Liberato retornou para Ponte Nova e acompanhou os últimos meses de vida do pai, que morreu naquele mesmo ano. Mas o menino agora era famoso na cidade como craque. 'A melhor escola da cidade era de irmãs salesianas e, por ocasião dos cem anos da instituição, os Jogos Salesianos aconteceriam lá. Elas quiseram reforçar os times de vôlei, handebol e futebol. Fui convidado com bolsa integral', recorda Liberato, que ia começar o terceiro ano do Ensino Médio.

Ele, que sempre tinha sido bom aluno, vinha desmotivado nos estudos desde a morte do pai, mas se sentiu desafiado quando a diretora da Escola chamou os bolsistas e expressou claramente sua desconfiança: 'Ela falou que não tínhamos base para estar ali, que teríamos muita dificuldade e que pedia apenas que não arrumássemos confusão. Aquilo me tocou!'

Já no primeiro trimestre ganhou um prêmio por obter as melhores notas da série. Nos Jogos, ajudou a levar o time ao vice-campeonato. Mas não foi só o acesso a um ensino melhor que mudou o destino de Liberato. Ele conta que mudou sua visão de mundo. 'Meus amigos de classe na escola pública não falavam em vestibular, não existia internet, a informação não circulava. O máximo que vislumbrávamos ao terminar a escola numa cidade pequena era trabalhar no comércio local. No meu caso, estava tudo acertado para trabalhar numa banca de jornal', conta.

Liberato, então, fez vestibular e passou para Viçosa, escolhida a dedo por ter alojamento e alimentação para alunos de baixa renda. Em meio às dificuldades para continuar no curso, veio o emprego no BB. Liberato entrou em 2000, designado a ficar nos terminais de autoatendimento ajudando os clientes, nas agências de Ubá e, depois, de Ponte Nova.

Enfatiza ele: 'Vi que sem mestrado e doutorado não iria muito à frente. E ficou claro que eu tinha que ir pra São Paulo ou Rio, nas universidades de primeira linha. Os planos de estudar tiveram que ser adiados porque surgiu a chance de ir pra Brasília, em 2002. Seria um salto na carreira, já que ele estaria no centro das decisões estratégicas. Fui como analista júnior e lá conheci meu guru no banco e na vida, que é o Aldo Mendes, então diretor de Finanças do BB [depois, foi vice-presidente do BB e diretor de Política Monetária do Banco Central].'

O mestrado veio em 2004 e o doutorado, em 2008. Em 2013, foi convidado a atuar como coordenador-geral de Análise Macroeconômica no Ministério da Fazenda: 'Fui cedido pelo banco e o programado era ficar seis meses, porque eu queria voltar logo para São Paulo. Acabei assumindo como secretário-adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda e acabei ficando três anos.'

Voltou ao BB em 2016, na Diretoria de Governança, depois foi para a área de Mercado de Capitais e, em 2020, foi nomeado diretor de participações da Previ, o fundo de pensão do banco. Liberato faz questão de frisar a importância que a educação teve em sua trajetória e de como se preocupa com seus irmãos - dos três, apenas um chegou a ter nível técnico e os demais não passaram do Ensino Médio. 'Fui o primeiro a ter nível superior. Quando pude, paguei uma faculdade para a minha mãe [Adair Liberato], que aos 50 anos se formou em Artes Cênicas em Ouro Preto [UFOP]. Ela agora é diretora teatral e foi secretária de Cultura de Ponte N o v a', conta, orgulhoso.

Agora, o executivo chega ao posto máximo da BB Asset. Mesmo assim, Liberato não se vê a salvo de situações de racismo. 'Sofri preconceito, sofri a vida inteira. Olhares atravessados, desprezo. Morava num flat em SP que tinha serviço de manobrista. Frequentemente eu estava na porta, parava alguém e me dava a chave do carro', lembra com tristeza.

Conclui ele: 'Hoje, se percebo algum caso de racismo imediatamente tomo uma atitude. Por isso, é importante ter cada vez mais pessoas negras ocupando espaços de poder. Quero ser uma referência para os jovens de periferia saberem que podem superar as dificuldades e seguir em frente.'







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